Dependência de medicações.

Epicuro já observava mais de 250 a.c que o prazer seria o bem supremo. Em sua filosofia elencava diversos elementos que sugeriam que a busca pelo prazer guiaria uma pessoa rumo aos seus objetivos e aos caminho que buscaria estabelecer. Contudo, o grego fazia uma ressalva, que o excesso de prazer traria dor em algum momento, fazendo uma oposição clara ao hedonismo, que pregava o prazer indiscriminado. Pois bem, esta busca por vezes cega do prazer tem se mostrado cada dia mais tóxica para nossa sociedade.

Vejam meus caros leitores, eu concordo plenamente que a vida precisa de prazer, para ser uma vida que valha ser vivida. Nosso sistema nervoso possui diversas vias neuronais especializadas em nos fazer sentir prazer. Sim, você sabia que dentro do seu cérebro existem circuitos elétricos como nossas redes públicas, que liberam energia, simplesmente para estimular sentimentos doces e gostosos? Pois é, e estas sensações são absolutamente deleitosas e nos dão uma percepção incrível de existência. Estes efeitos bioquímicos por si só já são maravilhosos para qualquer pessoa, mas pense você, que um determinado indivíduo vem de um longo caminho sem conhecer mais estes sentimentos, e encontra-se de certa forma desamparado e entristecido, e de repente ele começa a sentir algo que ele já nem mais sabia que existia...

Em uma outra situação, podemos encontrar alguém que tem uma vida ordinária, com as naturais flutuações de humor entre dias mais alegres e dias mais insalubres, e por algum motivo experimenta uma sensação muito diferente, com estímulos desconhecidos previamente, sentindo prazer acima do normal, e dessa forma acaba querendo aquela experiência outras e outras vezes.

O que ocorre é que diversas pessoas por algum motivo no curso da vida, podem acabar se encontrando com algum estímulo artificial que gere prazer, de uma forma diferente a que vinha acostumado. Seja por um episódio depressivo, com uma receita devidamente prescrita; seja por um momento de angústia, pegando a medicação de alguém que possuía prescrição para alguma patologia; em ambos os casos, e ainda tantos outros não descritos aqui, a pessoa acaba tendo contato com alguma medicação psicotrópica.

O termo psicotrópico, etimologicamente significa "relativo a mente", e portanto pode ser interpretado literalmente como descrito: uma droga que age diretamente na mente.

Tenho o hábito de conversar bastante com os meus pacientes e sempre lhes explicar, que algo que age diretamente na mente, não atuaria sem possíveis efeitos colaterais e sequelas. E nisto mora uma questão muito importante a ser abordada, que é a forma indevida que muitas pessoas enxergam estas medicações. As mesmas muitas vezes são vistas como pílulas mágicas, que seriam capazes de resolver qualquer problema e produzir, o quê, vocês imaginam? Prazer.

Se buscarmos nos autos da história, podemos ver as relações com o surgimento do clordiazepóxido, primeiro benzodiazepínico nos anos 60 (nomes complicados, mas diz respeito a família do glorioso Rivotril®), existiu-se uma histeria em relação a ter-se encontrado a medicação perfeita, que seria a cura de todos os males, e o segredo para encontrar a paz interior, independentemente de todas as pendências correntes na vida. Posteriormente nos anos 70, com o surgimento do Prozac® (fluoxetina), novamente falou-se em se encontrar a pílula do prazer, algo que tiraria a pessoa dos buracos emocionais, e o traria de forma inequívoca.

Mas o que a ciência foi descobrindo com o tempo é que não existe forma perfeita de se mexer com a mente, e principalmente que o prazer e a alegria não se produzem artificialmente sem sequelas.

Existe hoje uma geração dependente de pílulas emocionais falsas, que não advêm das conquistas pessoais, do sorriso daqueles ao redor, da alegria de sentir o amor, ou do simples aroma de uma bromélia. As pessoas diante de bloqueios emocionais seríssimos, conflitos familiares constantes, trabalhos extenuantes, relacionamentos abusivos, insatisfações pessoais; buscam soluções simples para problemas que foram construídos ao longo de décadas, e justamente por isso, encontram cada vez mais dificuldades para resolver seus problemas, acumulando frustrações, e quando diante deste cenário, encontram algum "comprimido hedonista" que resolvem momentaneamente seu problema, pensam que aquilo será suficiente para levarem a vida de forma normal.

Amigo, sinto lhe informar, e olha que isto atesta inclusive contra algo que faz parte da minha rotina; mas a medicação em si não resolverá seus problemas! E digo mais, ela te trará muito mais consequências a longo prazo, caso você se torne dependente delas. Veja bem, eu como um homem da ciência, sei muito bem que possuímos diversas exceções, mas como um notório observador da saúde mental no meu cotidiano, vejo que a grande maioria dos usuários crônicos de medicação, já nem mais sabem o porque tomam, possuindo todos efeitos refratários dos longos anos de utilização.

Então o que fazer se minha vida está naufragando, e estou me sentindo despedaçado? Boa pergunta, e as respostas virão com o tripé terapêutico de sucesso, formado por uma avaliação psiquiátrica, com medicamentos devidamente prescritos, sendo reavaliados constantemente, com propostas para início, manutenção e encerramento; avaliação psicológica, com profissional treinado para realizar uma boa terapia lhe ajudando a enxergar as mazelas de sua mente, os pontos a se fortalecer, algo como uma academia da mente transformando o indivíduo mais forte e preparado para os embates da vida; e por fim, a parte que considero a mais importante: você mesmo. Sim, a própria pessoa ter o desejo de melhorar e buscar ajuda é a parte mais singular e divisora de águas em um tratamento. Enquanto a pessoa não percebe que precisa de ajuda, e simplesmente está envolta em auto-suficiência; remédios e terapias "bate-papo" não funcionarão; contudo, à partir do momento que a pessoa percebe que precisa se reconstruir, o tratamento passa a ser eficaz, e toda aquela construção de anos e anos que o levaram àquele determinado ponto, passa a ser moldada e redirecionada.

Então meus amigos, findo este texto dizendo que não existe forma mágica para o prazer que não envolva sequelas. Podem ser as medicações, ou drogas ilícitas, elas lhe trarão ônus, então se você ainda não é dependente procure um médico, um psicólogo, um tratamento. Se você já é dependente, repense sua vida, provavelmente você já percebeu que está mais irritado, com prejuízo de memória, dificuldade de estabelecer relações, com ansiedade aumentada, algum destes sintomas, mas eu te digo que há uma forma de virar esse jogo, e manter seu sono, seu apetite, seu bem estar, de uma forma totalmente diferente a que você está fazendo agora no seu modo automático.

Concordo com Epicuro, a vida precisa de prazer, mas o prazer de verdade, precisa da vida.

G.H.G.O

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