Pessoas Invisíveis

Possuo um cronograma de assuntos que gostaria de tratar com vocês, contudo algo que chamou a atenção do país esta semana, me fez mudar um pouco a ordem e tratar deste tema, talvez com uma roupagem um pouco diferente, mas totalmente pertinente a estes nossos últimos dias.


Com o risco de sofrer um pesado julgamento (que talvez eu realmente mereça), compartilho com vocês algo que vivenciei recentemente. Estava vendo imóveis em uma determinada região da cidade de São Paulo, e conversando com minha noiva, comentei o quanto aquela região era bonita e bem desenvolvida e que possuía belíssimos prédios. Alguns dias depois passamos pela região e de fato possuía vários prédios bonitos, próximos a algumas grandes avenidas, mas quando cheguei na região reparei em uma pequena comunidade presente, além de alguns locais menos belos; e o ponto assustador para mim, foi que passo por este local toda semana e nunca tinha reparado nesta parte do bairro, e foi quando pensei, existem pessoas, locais, situações, que são invisíveis para os olhos de muitos.

Em um outro ponto da minha experiência profissional, atuo na atenção básica de saúde, e vislumbro realidades, que talvez estejam distante para muitas pessoas, mas são de forma maior ainda o cotidiano de tantos outros. Dentro dessa perspectiva, tenho a oportunidade de enxergar dois lados de uma mesma moeda dentro da sociedade, onde em diversas situações um lado se cega para o outro.

Me partiu o coração uma vez dentro do trabalho, quando perguntei a uma paciente há quanto tempo ela vivia em São Paulo, e ela me respondeu há 15 anos; então eu prontamente perguntei o que ela mais gostava na cidade; ela me disse que não conhecia muito; eu por minha vez arrisquei alguns pontos marcantes daqui e perguntei sobre o símbolo da terra da garoa, avenida paulista. Neste momento veio a parte estarrecedora, ela me respondeu que nunca tinha ido porque estes locais não eram pra ela, ou seja, qualquer lugar que não fosse a periferia. Vejam bem, realmente ninguém é obrigado a ir a local nenhum, e existe gosto para tudo, contudo esta pessoa sentia que não podia sequer ir a uma via pública, por se sentir insuficiente.

Este excerto na época me fez pensar que, de tanto um lado mais poderoso financeiramente não enxergar pessoas que não possuam coisas, o outro lado acaba agindo de igual forma, considerando que se algum local possa ter pessoas com mais recursos financeiros, aquele local não tem pessoas que estes possam enxergar.

Quando vivemos em uma sociedade com pessoas invisíveis, de maneira alguma podemos esperar uma saúde mental satisfatória na interação dos setores. Por dentro somos todos de carne e osso, e ninguém é imune a morte, contudo, ainda assim muitos agem de forma a se postar como se fossem de uma espécie superior.

Como eu disse anteriormente, ninguém é obrigado a gostar de todas as pessoas, ou se relacionar de forma direta com qualquer um que viu, contudo, aqueles seres existem, estão ali de corpo presente, e logo, você como ser humano, tem a OBRIGAÇÃO de tratar a outra pessoa como alguém que está na sua frente, com respeito e educação.

Quantas pessoas não morreram por radiação, ou por choque dentro de piscina que está eletrificada? E o que estas situações têm em comum? O fator causal é invisível. Quando não vimos algo, somos descuidados, agimos sem a cautela adequada e simplesmente não percebemos o que acontece. Desta forma, se você não vê alguém, você machuca, não se importa e pode passar por cima ou até mesmo destruir uma vida; simplesmente porque não QUIS ver.

Note, não há ninguém invisível, portanto, se alguém o assim é para você, isso partiu de ti mesmo, e não da outra pessoa, porque ela está lá.

Todo mundo gosta e precisa ser notado; evidentemente que de formas diferentes, mas no que tange o respeito e a educação, isso sem exceção. Dentro das mazelas da saúde mental, um simples destrato, ou uma palavra ruim, ou até mesmo a indiferença, podem causar sequelas psíquicas sem precedentes, em pessoas que você talvez nem conheça, pois para alguém que de alguma forma já se encontra fragilizado, sua atitude pode ser a gota d’água para um estopim de sofrimento.

As pessoas diferentes, seja por classe social, ideologia, nacionalidade, região do país, sexualidade, ou qualquer outra coisa que você preferir, elas continuam sendo pessoas, e quer você queira ou não que elas existam, elas vivem sim, respiram o mesmo o oxigênio, nasceram também do ventre de uma mãe, e irão um dia falecer, tudo como qualquer outra pessoa, então ao invés de ignorar, ou desejar a destruição, fazer do mundo um local mais colaborativo, e com mais compreensão e respeito, traz para a saúde mental um poder muito mais eficaz.

Quando uma pessoa se sente valorizada dentro daquilo que faz, se sente pertencente a sociedade; ela desempenha melhor seu papel, fortalece seus relacionamentos interpessoais, e consegue sentir um propósito na sua existência, desta forma podendo organizar suas ideias e nutrindo positivamente sua psique. Isso tudo está ao alcance de cada um de nós, à partir do momento em que lembramos que neste mundo: NINGUÉM É INVISÍVEL.


G.H.G.O


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